A era da ira dos ismos

Não está sendo fácil
Viver e conviver no “mundo dos homens”
Que se perdem pelas suas próprias contradições
Em câmera lenta
Dos celulares, gestos, luzes e ação
Filmam, gravam, registram e revelam
Virando notícias, em redes sociais,
em TV’s e em letras de jornais
O filme real da vida quadrada
As tristes imagens
Ainda na cor de preto e branco
Violência e crimes
Veias abertas
Que já se romperam
Há vários séculos
Tumbeiros negreiros
Mortes e naufrágios
Manchando mares azuis de sangue
Escorrendo rios negros de sangue
Pela terra
Lágrimas negras de sangue
Sangue e sangue…
No século XXI
A ignorância e o preconceito

Reinam como se fossem
Um rei número um
Entre tantos assassinatos pela covardia
Infelizmente, se foi Marielle Franco
Foi apenas mais uma?
Entre tantas outras de todos os dias
Com este racismo
Ainda nas entranhas da sociedade
Só provoca cegamente a maldade
Que se materializa nos extremismos
Na era da ira dos ismos
Do teu conservadorismo
Do teu fundamentalismo
Do teu autoritarismo
Do teu machismo
Do teu nazifascismo
Do teu egocentrismo
Do teu materialismo
Do teu narcisismo
Do teu cinismo
Do teu egoísmo
E do teu racismo
Implícito e explícito
No mundo dito “civilizado”

Os homens ainda revelam seus piores instintos
Por ódio, por violência,
crimes, guerras e mortes
O teu racismo te cega
Fazendo perder a memória da história
E a consciência do valor da vida
E negas desumanamente
O trabalho do outro
A importância do outro
A presença do outro
Do negro e da negra
Do crioulo e da crioula
Do caboclo e da cabocla
Do mestiço e da mestiça

Negas teu vermelho sangue mestiço que corre em tuas veias ainda que seja branco ou pardo?
Como podes negar tua cultura assim?
Negas o samba, Lima Barreto
E até Machado de Assis?
O racismo que te assola
Te ensurdece
Não conseguis ouvir
E perceber
As sensibilidades das palavras
Das músicas de Pixinguinha e de Cartola
Nem tua alma amarga
Nem teu corpo estático de ira
Conseguiria bailar o swing das cirandas
De Lia de Itamaracá

Me julgas pela cor da pele
Com teu estigma me repeles
Pelos cabelos crespos e ondulados
Mas lindos castanhos cachos!
Me esnobas
Pela minha classe baixa
Isso te incomodas
Eu sem gravata e sem paletó
Usando calça velha amarrotada
Na braguilha um cordão de algodão
Amarrado dado um nó
Sem um “vinco reto” de classe
Mas a minha honestidade e minha consciência
É a minha honra e mais alta classe
Os teus olhos tomados por ismos
Cego te faz
E não enxergam mais
Os detalhes da face humana
Negra ou branca

Só tens olhos para ver defeitos e achar rasgões em um simples calção de saco
Não conseguis ver
A riqueza e a criatividade
Do artesanato de uma arte negra
E em mim,
O ser humano com alma
Teu irmão semelhante
Na cabeça de tua irmã
Com singeleza e beleza
Um desbotado e colorido turbante
Como arte e criações perfeitas
Feitas pelas mãos das divinas Deusas Negras
Tua “fortaleza”, são as tuas fraquezas
Insensível e cego de ira que estás

Já nem as percebe
Nessas circunstâncias
Tuas mãos já não precisam mais de chicotes e revólver para cometer o crime
Porque teu braço torna-se instantaneamente
A própria tranca forca móvel
E o teu joelho, o punhal e o automóvel
Em ação
Para a maldita “inquisição”
Do horroroso, fogoso, orgulho branco
Como arma branca
Usados como instrumento da morte
De carne e osso de tua classe
Que cedes e serves aos instintos
Mais primitivos e desprezíveis
Por ignorância e por preconceito
Camuflados por uma falsa textura cordial
Mas por dentro um monstro brutal
Que por instantes explodi o mal
arraigado há séculos por esse sistema cultural
E mostra sua face de peitos abertos
Para negar com prepotência e violência
A existência do outro
A empatia pelo outro
Tornando-se o algoz feroz
Nas manchetes de jornais
Com as mãos sujas de sangue
Enforcando
Sufocando
Matando
E depois…
Aparecem mortos
George Floyd
Entre tantos outros
João Alberto
E agora, Freud?
Nem tu explicas?

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