As Máscaras das Lantejoulas

A história ainda é o caminho das possibilidades de reflexão que se pode trilhar para o entendimento do presente. Porque nela estão discutivelmente sempre as marcas das digitais dos dedos dos homens através das mais variáveis e invariáveis ações e fatores que a humanidade atua e se manifesta no desenvolvimento a partir de seus aspectos culturais notáveis.

Podemos então assim dizer, como exemplo, o Carnaval. Festividade essa, que todos os anos, nos traz os movimentos das massas e dos mares alucinantes de cores, lendas, mitos, contos, críticas, musicas, danças, historias e poesias que resgatam tesouros perdidos e esquecidos de nossas ancestralidades fazendo-se presentes diretos e indiretamente como estilos, no corpo e na alma, na mente e na boca do povo ainda nos tempos de hoje.

O carnaval além do seu acervo abrilhantado de púrpura explícito para o mundo, também é a festa que testemunha cultura e que ao mesmo tempo oculta as nossas realidades que sempre estão girando em rodas de cirandas ambíguas de amores e ódio com pedras das lantejoulas que ornamenta belíssimas máscaras que camuflam e escondem as “feiuras” reais das faces sociais, que por alguns dias, tudo fica ou parece harmonioso entre as classes de fantasias esbanjando alegrias e cantando (Toquinho), com efeitos degustados de uma cachaça de rolha “sentido toda terra a rodar” vestidos naquele velho calção de banho em frente ao mar escutando a banda passar.

E neste clima refrescante, muitos dos pensamentos fervilhantes se esfriam tornando-se velhos e são descartados à beira da praia como uvas podres e maçãs vermelhas estragadas deixadas por Eva, porque não as quer mais em seu cesto. Logo, o cheiro forte e açucarado dos frutos podres, atrai moscas azuis que pousam sobre eles e devoram todo o maná de langanhos. Naquele momento tudo não passou de uma miragem de antigas ideias às vistas.

Com isso, não queremos dizer que, a cultura brasileira fica estagnada, pelo contrário, neste momento carnavalesco ela se reinventa e flui aflorando popularmente a criatividade do povo tanto para o bem como para o mal nas entrelinhas de suas contradições sociais, cultural e econômica tornando-se um “útero” de produtividade antagônico de arte e de empreendedorismo ambulante nas areias quentes das praias.

Algumas pessoas que dizem serem mais “críticas” do que religiosas a festa de Dionísio, para elas a festa não passa da mais impura libertinagem festiva latente, que vai ao exagero das saliências dos prazeres deliberados pelos desejos e pelos anseios carnais. Que induzem os indivíduos à irracionalidade dos apetites obsessivos das sensualidades sexuais, das orgias e da embriaguez abusiva do “vinho”. Mas, para outras pessoas, que se rendem aos encantos dos deuses da festa, contam dias e noites ansiosas à chegada desse momento de folga pra vadiar alegria.

Neste aspecto, o carnaval é para elas, a mais pura liberdade da vida que pulsa como vinho fermentado de cor de sangue escarlate correndo cultura pelas veias ao som de frevo, de samba, maracatu, caboclinho e folia causando magia na alma e calor no corpo que soa melanina cheirando amor, prazer e paixão sem preconceito do ser e dos seres podendo ser o que quiser ser. E é neste clima de folia que muitas pessoas esquecem os seus estigmas e preconceitos e se entendem umas com as outras naquele presente festivo tornando o carnaval por um instante a festa “democrática” dos povos e das raças.

Com o arco-íris estampado nos céus de muitas gentes, criam coragem-arte de revelar suas faces pintadas sem máscaras, e outras, procuram sempre escondê-las por trás de fantasias o ano inteiro. E na política brasileira o uso das máscaras ainda não deixa de ser a moda de esconderijos das facetas dos canalhas e dos corruptos mesmo depois do carnaval.

Mas tem um detalhe aí, a máscara feita realmente para o carnaval, é símbolo expressivo da obra, da arte que expressam culturas. Já na política, os seus significados são bem diferentes: as máscaras não passam de caricaturas berrantes a hipocrisia e ao cinismo dos “caras lisas”.

Enquanto isso, no palácio do planalto, o carnaval começou bem antes. Com alguns ministros metendo os pés pelas mãos e o presidente com seus filhos se metendo em confusões e trapalhadas carnavalescas.

A senhora Damares, ainda está discutindo a “cor da roupa” se é rosa, azul ou se vai de laranja para o samba das “gaffe-ieras”. O ministro das relações exteriores, fantasiado de Dom Quixote montado em seu cavalo-de-pau querendo gritar touché no bloco quinze das cruzadas.

E o Veléz, tentando cantar desafinado o hino nacional marchando soldado cabeça de papel quem não marchar direito vai preso pro quartel. Isso é piada ou verdadeiramente uma zorra à colombiana?

No entanto, o presidente até tenta falar grosso, mas não passa de uma gaivota com faringite perante seus filhotes, que transitam na presidência da república como aves de rapina há um palmo de seu nariz.

Pois, segundo Villa, comentarista da Jovem Pan, o presidente prefere twittar duelando com coisas insignificantes no momento difícil que se encontra o país e se atolar em polêmicas, do que governar.

Essas besteiras doentias, que alucinam a cabeça do presidente, fazem com que o governo entre em crise e perca o foco de suas responsabilidades com as reformas; já que para o seu super ministro, a previdência do jeito que está é o calcanhar de Aquiles, e sua reforma é caso de “independência” ou morte. Mas afinal, quem foi o maior dos idiotas no fim da festa, o presidente que twittava suas balelas ou um paspalhão avermelhado se autoproclamando “presidente da república” parodiando loucuras achando que o cargo estava vacante?

E para finalizar o assunto, depois de oito dias que se passaram do fim do carnaval, os ânimos se acalmam e as folias esfriam no corpo. Então, as máscaras das lantejoulas caem fazendo-nos tomar ciência dos problemas de si. E logo, a vida cotidiana nos revela feito espelho reflexos das realidades complexas e humanas as nossas “feiuras” e mazelas lançadas em rosto tornando-se novamente notícias estampadas em jornais, revistas, televisão e rádio como: os quase 13 milhões de desempregados, os projetos de reformas duras, a violência, os crimes, as enchentes e massacres que voltam a perturbar e a bater em nossas portas por falta de mais incentivos de políticas públicas e de investimentos governamentais na infra-estrutura ambiental, social e urbana.

Ou seja, ainda há muito samba pra pouco couro de tamborim.

Reflexão da Semana de Carnaval de 2019.

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