Não sei se devemos falar das flores ou dos espinhos

Por: David Silva

Colaboração: Sebastião Catequista*

Sítio Baxio / Sábado de Aleluia

Não sei se devemos falar das flores ou dos espinhos. Mas busquemos compreender nas metáforas os caminhos da vida no decorrer dos tempos. Pois, não pode haver vida sem dores… de parto.

As dores das madres e das entranhas germinam vidas e fazem parte do nascimento no gênesis. O novo ser materializado é frágil e humano em existência, um fôlego chamado à vida pelo divino Criador. E como depende do ar puro de amor e de afeto!

E assim tentamos decifrar os signos e enigmas da vida cotidiana, acreditando que até a própria natureza uterina do ser é um “parto” para o “mundo inteligível”, segundo o filósofo grego Platão (428-348 a.C). E essa “passagem” no processo de amadurecimento que se naturaliza tanto na órbita materna quanto no mundo de dentro para fora do “útero” num senso comum que transcende permanentemente, a imperfeição da alma humana.

E mediante todo esse processo encantador nos pomos a perguntar: o que é realmente a vida?

Para muitos, ela é o sopro do Criador (Gn 1,26s), ela é alma, espírito ou nada a valer. Já para outros, ela é contradição, um paradoxo chocante entre o joio e o trigo (Mt 13,24-30), mas sempre intrínseco um ao outro para sobreviver no mundo das complexidades dos homens. Mas, que nunca deixou de ser criada por Deus e desejada principalmente pelos próprios homens que lutam contra a sua finitude e contra a morte em busca de uma durabilidade de vida infinita e imortal.

Quem sabe talvez, através de sua criatividade, da Arte Memorial reflexiva, da beleza e da feiura, fazendo-se História e cristalizando palavras em Literatura, Poema e Poesia, tornando-se a Música infinita do vento vencendo seu inimigo feroz, o tempo, que lhe faz envelhecer a cada momento até chegar à morte transformando o corpo corruptível em pó (Gn 3,19b).

No entanto, entendemos com evidências, que a vida é o próprio Deus em nós e entre nós e para além de nós. Então, neste caso, sempre deve ser vivida, celebrada e partilhada em comunhão com amor e poesia da Palavra fraterna entre irmandade comunitária buscando sem cessar o despertar do Espírito à Mística.

Essência onde a plenitude do amor se move na oração e na ação causando efeitos reais em doar-se muitas das vezes sua própria vida em razão da vida do seu irmão/ã e pelo seu próximo salvando-o da morte desvelando Cristo.

Assim, encontramos a vida espiritual enquanto a Espiritualidade está no projeto de vida evangelístico vinculado à realidade humana de Jesus de Nazaré que desde a fundação do mundo é a Luz que brilha sobre as trevas, sobre o caos (Jo 1,1-18). Luz-vida que encontra energia magnifica através do testemunho dos Evangelhos no meio dos pobres, dos desvalidos, dos marginalizados, daqueles e daquelas que têm fé do tamanho de um grão de mostarda e nele crer.

E como entender o enigma do Deus da Vida na fragilidade humana? Sobretudo entre as ruínas de uma “política romana” e “draconiana” que se repete na desumanidade com fatos pela força do egoísmo e da crueldade dos homens durante séculos, em nosso país.

Onde há salinidade nas paredes dos templos e os cupins da mentira e da corrupção corroem madeira de lei e a ferrugem, os ferros da engrenagem do sistema político, que já não mais funcionam porque se chocam em desarmonia com os poderes para que se abram caminhos ilícitos para as traças e os ratos roerem as “cortinas do Palácio” e as “roupas do próprio rei de Roma” deixando-o nu com suas “vergonhas” de fora. Logo, o rei mal coroado fica furioso por estar nu e com seus crimes à vista, “crucifica” o povo sofrido, oprimido à margem dos requintes da sociedade (Pr 29,2).

Como? Como? Talvez a resposta seja: não devemos perder as esperanças da vida na vida, de vivê-la e revivê-la chamando a Luz e sentindo seu calor dentro de nós mesmos aniquilando assim as sombras do medo e do mal de forma espontânea, mas de forma corajosa, respaldada na consciência plena da liberdade. Acreditando que as “dores de parto”, fazem germinar pelo “útero da história” (Gl 8,19-25s) um novo ressurgir entre as folhas, os ramos e os espinhos, renascendo significativamente para um tempo que resplandeça a justiça, fruto da paz sem ódio e sem vingança, um novo céu e uma nova terra através do verbo Esperançar.

Hoje, nesta noite de domingo de lua minguante, a vida nos convida a presenciar e nos presenteia a celebrarmos juntos a ressurreição das flores. Nossa casa está iluminada com claro de lua renascente que símboliza o recomeço de mais um ciclo vital com as bênçãos de Deus para os irmãos e irmãs que estão na páscoa por mais um ano de renascimento das flores em nosso meio. Seus rostos brilham como astros incandescentes e seus sorrisos transbordam alegria em ver o jardim dos cactos cheios de flores entre os espinhos no primeiro dia da semana.

Por algumas horas, fomos elevados pela alegria e pela doçura do vinho que nos embriagou com seu amor e que nos aqueceu os corações com o eterno desejo de viver (Sl 104,15). E nessa hora já não percebemos que a matéria estava morta e a alma já transcendia no sétimo paraíso…

Na verdade não nos damos conta disso, por vaidade e apego ao capricho material, estético para sairmos nas fotografias líquidas, facial e corporal que por ser frágil e tão passageiro, tombou-se a terra em um curto prazo de tempo (Ecle 1-3).

Porque simplesmente, somos matéria perecível, ficando apenas em nós a ternura interior essencial do amor que ascende o espírito supremo à bondade. Beleza essa, que permanece como diamante de Luz para sempre em nós pela fé.

O vinho tinto sagrado da alegria deixando-nos anestesiados das dores por um momento glorioso fazendo com que nós nos esquecêssemos por um instante do “Palácio” assombroso e de seu jardim seco e espinhoso que ataca constantemente com suas maldades à mão fria as flechas pontiagudas venenosas que ferem e matam o direito à vida.

O quê podemos dizer, neste momento que a morte pela pandemia tenta sobrepor no mundo e nos espaços públicos e privados a vida com milhares de mortos, através de uma política genocida e um discurso horrendo de quem a profere, falando o ruído roer do mal com as mãos sujas de sangue? Preferimos nos render ao amor, unidos pela vida em favor da vida salvando vidas ou ceder ao materialismo supérfluo suicidando a alma?

De acordo com pensamento aristotélico, a felicidade “eudaimonia” é o único sentido e objetivo do homem. E se para ser feliz, é preciso fazer o bem ao outro. Então o ser homem é um ser social e, mais precisamente, um ser político. Na realidade, cabe também ao Estado “garantir o bem-estar e a felicidade do seus governados”.

E a vida? Segue seu curso igual as águas caudalosas dos rios e se espraia até chegar ao mar… Enquanto o tempo com resiliência se encarregará de trazer o processo, juízo esclarecedor da verdade dos fatos.

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* Agradecemos a Sebastião Catequista, do Cebi, que em colaboração comigo, revisou o texto e nos prestou valiosas contribuições bíblicas.

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